Compromisso Concreto da Celebração
O
título completo desta reflexão deveria ser: “o compromisso concreto como
conseqüência de cada celebração litúrgica, especialmente da Missa”.
Uma
proposta de vivência concreta inspirada na Palavra da celebração, especialmente
no Evangelho, que pode ser de caráter pessoal, comunitário, espiritual,
familiar, pastoral... Por ser concreto, vem com matizes de praticidade, como
por exemplo, realizar alguma atividade ou obra de misericórdia, ou com matizes
de crescimento na espiritualidade, ou com alguma proposta de atividade pastoral
em vista do bem da comunidade etc... tenha o matiz que tiver, sempre se
sintoniza com a pedagogia do crescimento no discipulado a partir da Palavra, da
celebração em sua totalidade e do contexto social no qual a Liturgia é
celebrada. De onde vem isso?
O Documento 43 da CNBB — “Animação da Vida Litúrgica no Brasil” (1989) —, a
partir do n. 64 apresenta seis dimensões da Liturgia: memorial, glorificação da
Trindade, ação de graças, súplica de intercessão, pedido de perdão e
compromisso. Quanto à dimensão do compromisso, o Documento 43 diz:
“Quando se tem consciência de que pecar
é condição da humanidade toda, de que a unidade de todos os homens e mulheres é
obra do Espírito Santo, e de que a glória de Deus é a realização de seu povo
também na História, é fácil compreender que a Liturgia, além da conversão
pessoal, comporta um compromisso social. O Reino de Deus que se realiza onde
Deus reina por sua graça, também se explicita no pão de cada dia, na
convivência fraternal e nos anseios de libertação de todo o mal. A Liturgia não
nos convida apenas para ouvirmos falar do Reino, mas para nos impelir e
animar a construí-lo.” (Doc 43, 72-73).
O compromisso concreto, no
Documento 43 da CNBB, do ponto de vista teológico e espiritual, tem um caráter
reparador, não no sentido de “consertar” os estragos do pecado no contexto
comunitário, mas de reparar, de colaborar com o Espírito Santo para refazer o
novo. Lembremos que é o Espírito Santo aquele que “renova a face da terra”,
como cantamos nos hinos pascais de Pentecostes. A celebração, sempre no
contexto do Documento 43, envia para o compromisso de colaborar com Deus, para
que os valores do Reino aconteçam na história da sociedade, através da
fraternidade, da convivência solidária, da libertação do mal. Um compromisso,
portanto, que tem a ver principalmente com o projeto divino do Reino de Deus.
Este é um modo de entender que a celebração não acaba na igreja, mas continua
na vida. Quem fez experiência de Deus celebrando a Liturgia age conforme o
projeto divino, de modo prático no concreto da vida comunitária e social.
Quando trato deste tema, gosto de fundamentá-lo na passagem evangélica de Lc
10,25-37. Um Doutor da Lei se levanta e pergunta a Jesus: “quem é o meu
próximo?” Jesus responde com a parábola do “Bom Samaritano”. Chamo atenção para
a conclusão de Jesus, que responde ao Doutor da Lei nestes termos: “vai e faze
tu também o mesmo” (Lc 10,37). Sempre dizia em minhas aulas, cursos e
palestras que considero esta frase de Jesus o modo mais adequado para o envio
de toda celebração litúrgica, especialmente da Missa. Depois de ouvir a Palavra, depois de partilhar a Palavra na homilia,
depois de celebrar a fração do Pão e do Vinho, o celebrante deveria ouvir, no
momento do envio: agora você deve fazer o mesmo que celebramos aqui dentro.
Esta é, aliás, uma compreensão do desejo de “celebrar a vida”. Celebra-se
aquilo que se vive e vive-se aquilo que é celebrado.
Este fundamento bíblico torna-se ainda mais profundo se consideramos o contexto
da Última Ceia, quando a Eucaristia é instituída e iluminada pelo gesto do
lava-pés (Jo 13,5). De um lado, o recado que a celebração litúrgica sempre
encerra um forte apelo ao serviço. De outro lado, os mesmos joelhos que se
dobram em adoração a Jesus sacramentando, também se dobram para
servir; “Jesus ajoelhou-se e começou a lavar os pés de seus discípulos”. A
exemplo da conclusão da parábola do Bom Samaritano, Jesus conclui o gesto
propondo seu compromisso concreto: “vocês viram o que eu fiz ... façam o
mesmo” (Jo 13,14; Lc 10,37).
A celebração litúrgica, em todos os sacramentos, especialmente a Eucaristia, em
certo sentido, nos coloca na posição de quem interroga Deus sobre como devemos
agir, como devemos viver concretamente aquilo que celebramos. Sua Palavra
orienta como agir e a homilia atualiza a Palavra para a realidade concreta do
agir no contexto social da comunidade. Cada celebração é, igualmente, um “ver”
como Deus e como Jesus agem, para depois de ver, refletir, rezar e celebrar,
viver e agir concretamente do mesmo modo. É desta forma que a celebração
litúrgica vai modelando o coração dos celebrantes, não apenas como devotos ou
orantes (que também é um efeito concreto), mas como discípulos e discípulas que
agem e vivem como o Mestre.
Diante de tais considerações, fica claro que a Equipe de ANIMAÇÃO LITÚRGICA,
juntamente com a homilia do padre e com o ministério da música, precisam estar
afinados para facilitar uma proposta concreta e vivencial em cada celebração.
Pastoral Litúrgica –
Equipe de Animação Litúrgica
Uma
Pastoral Litúrgica que seja realmente evangelizadora dentro da comunidade, capaz
de formar discípulos e missionários para levedar a vida com o fermento do
Evangelho. Eis desejo e um projeto de trabalho para a Equipe de Animação
Litúrgica, especialmente aquela que se dedica ao contexto comunitário
paroquial. A Pastoral Litúrgica — formada pela Equipe de Animação Litúrgica e
pelas Equipes de Celebrações — não pode se contentar em fazer com que as
celebrações, a Missa em particular, sejam bem feitas, agradáveis e bonitas.
Celebrações bem feitas, sim, mas tendo em vista uma finalidade bem clara com o
compromisso evangelizador para produzir frutos evangelizadores na comunidade. A
Pastoral Litúrgica não é formada unicamente para ajudar o padre nas funções
celebrativas, mas para ajudar a comunidade a construir uma Igreja de “pedras
vivas”, onde se vive concretamente os valores do Reino de Deus.
Não poucas Pastorais Litúrgicas
Paroquiais (PLP), seja na coordenação (Pastoral Litúrgica) seja na execução
(Equipes de Celebrações), perderam a meta evangelizadora e se tornaram
seguidoras de listas. Perderam o víeis pastoral e se transformaram em listas de
funções: leitor, salmista, ministro da distribuição Eucarística... É a triste
imagem de uma Pastoral Litúrgica organizada em listas. Talvez bem organizada,
mas sem vida e sem frutos, porque parou na organização e perdeu o objetivo
evangelizador. São Pastorais Litúrgicas com uma estrutura bem feita, com
reuniões que se multiplicam em mais reuniões, mas esquecidas do compromisso
evangelizador. Quando isso acontece, aparece o cansaço, perde-se a alegria e o
entusiasmo de animar a comunidade com celebrações que se caracterizem pelo
espírito litúrgico, que sempre é evangelizador.
Quando uma pastoral deixa de ser pastoral e se transforma em listas de funções,
estas sacrificam, literalmente, “sempre os mesmos”, obrigando-os a assumirem
diferentes ministérios: ora são leitores, no Domingo seguinte acolhedores,
noutro fazem a coleta. E assim vão levando. Longe — bem longe — de um objetivo
e de um compromisso evangelizadores, pois se tornaram esquecidos que a Pastoral
Litúrgica tem sim finalidade evangelizadora e não é somente ou unicamente
auxiliadora de celebrações, mas uma EQUIPE DE ANIMAÇÃO LITÚRGICA COMUNITÁRIA.
Mas, nem tudo é negativo, graças a
Deus. Existem comunidades que investem na Pastoral Litúrgica por reconhecerem
que os momentos celebrativos são momentos especiais para evangelizar e para
conduzir os celebrantes ao discipulado. Há um esforço grande, não se pode
negar, da parte de muitos padres e leigos para tornar a Pastoral Litúrgica uma
verdadeira fonte da evangelização: participam de cursos de atualização,
estudam, mantêm um processo de formação permanente, escolhem pessoas
capacitadas para os ministérios... Isto é animador e louvável nas comunidades
que atuam pastoralmente na Liturgia e através da Liturgia. São comunidades
dispostas a fazer sempre o melhor e a fazer sempre bem feito, nem que seja
pouco, para que os frutos do Evangelho comecem a surgir e sejam colhidos na
comunidade.

Comentários
Postar um comentário